sexta-feira, 21 de junho de 2013

Tempus Fugit, ou De Olhos bem Abertos




Por Pedro Lobo Martins

As manifestações agradam-me aos olhos e aos ouvidos (à parte os vândalos, é claro). É que tem gente de todas as cores nas ruas, ainda que muitos não saibam, e nem queiram, definir-se ideologicamente. Tem gente da esquerda e da direita. Isso traz uma grande riqueza às discussões que, agora e no futuro próximo, vão procurar explicar o que está acontecendo.

Muitos jovens de classe média, que não conheceram as sangrentas lutas ideológicas das décadas de 60 e 70, e que, portanto, nunca precisaram escolher um lado (militantes versus militares, como era obrigatório até pouco tempo), agora dizem com todas as letras de seus cartazes que nem um nem outro daqueles lados os representam. Vão às ruas sem bandeiras. Vão às ruas com seus brados fortes e retumbantes dizer que a era do maniqueísmo das cores acabou e que uma rosa não representa, necessariamente, o bom e o belo.





Daí, talvez, sua intolerância pelas bandeiras, ainda que vermelhas. Vermelhas? Sim, a antiga cor da juventude, das marchas de braços dados ou não em que se caminhava e cantava e se seguia a canção. Aquele disco arranhou, a canção ficou fora de moda. A geração '68 cumpriu seu papel, mas os tempos agora são outros, aquelas águas passaram. O maniqueísmo ideológico deu lugar a um arco-íris de ideias que não brilham mais apenas em tons de vermelho ou de azul. Foi o que o Movimento Passe-Livre, o PSOL, o PSTU, o PCR e outros anacrônicos partidos "de bandeira" aprenderam a duras penas nas ruas.  Não foi a Globo, a Veja ou qualquer outro veículo da grande mídia "reacionária" que levou essa nova leva de pessoas às ruas. Foram as pessoas mesmas, com seus próprios pés no chão, cartazes na mão, um grito na garganta e muitas ideias na cabeça.





Talvez o PT não tenha percebido tudo isso. Lula e Dilma não perceberam isso. Poucos políticos perceberam isso. O cavalo selado passou e passou e passou nesses 10 anos e ninguém pensou em montá-lo para promover a Reforma Política!

É o que leva a nova geração às ruas e, no fundo, a faz bradar.







segunda-feira, 17 de junho de 2013

Pão e Circo




Por Pedro Lobo Martins

Esta história toda de protestos tem sido ótima. Ótima porque pessoas adormecidas têm acordado. Mas alguns aspectos do que tenho lido e assistido têm me incomodado:

1- Onde estão as pessoas das classes D e E? Parece que só os setores politicamente organizados/ intelectualizados, sobretudo da extrema-esquerda, inicialmente (PCO, PC do B e PSOL) e, mais recentemente, uma parte menos alienada da classe média, vão para as ruas. Isso mostra, talvez, que enquanto houver pão e circo, digo, bolsa-família e futebol, carnaval, novela e afins, o cidadão comum vai  continuar "feliz" e não vai sair da sua zona de conforto.

2- Tanto a esquerda quanto a direita querem se apropriar do movimento.
A esquerda fica indignada porque começou tudo e estarrecida por não ver o povão nas ruas. Mas tem que ver a "elite" nas mesmas ruas e no facebook, essa elite que, tendo a barriga cheia, os bolsos recheados e o cérebro cultivado, não teria o direito de reclamar de nada (???). A direita, por sua vez,  quer capitalizar a questão, sobretudo depois da desconcertante vaia ouvida pela presidente, para seu projeto de oposição. Mas a verdade é que o movimento se configura agora como uma clássica gota d´água em que as ideologias se misturam e se confundem, tomando as feições de um basta à corrupção geral em todos os setores, à impunidade e aos gastos enormes para as copas das Confederações e do Mundo.

3- Nessa miscelânia de diferentes indignações, ideológicas e sem ideologia, da esquerda e da direita, o resumo geral de intenções parece recair, infelizmente,  sobre o governo: as pessoas querem mais governo. O problema é que é exatamente o governo a fonte das mazelas que nos afligem, desde a ineficiência do transporte público até a falta de saúde e educação da população, com toda a corrupção que vem a reboque. O que falta não é mais governo: falta (muito) menos governo.

Estamos todos certíssimos em reclamarmos dos gastos altíssimos com estádios de futebol e com a infra-estrutura específica que pouco tem a ver com as reais demandas da população. Os turistas não são mais importantes do que nós e nossos filhos. Nem os empreiteiros amigos dos políticos (vide meu post anterior sobre Clésio Andrade). O bom turista percebe muito bem o que é mera maquiagem e o que é feito para ficar. Nós mais ainda. E o que se faz para ficar é saúde, educação e segurança.


??????


Não está na hora de pedirmos tarifa-zero. Enquanto houver governo na conversa as tarifas serão altas e pagas pelo contribuinte, ainda que os ônibus sejam de graça. Enquanto houver governo, seus amigos, que incluem os concessionários, ganharão às custas de (mais) taxas e (mais) impostos pagos pela população. Está na hora de pedirmos, nas ruas e nas redes sociais, que o governo faça aquilo que é sua função precípua: escolas-dez, uma rede de assistência à saúde-dez, um sistema jurídico ordenado e eficiente e uma polícia-dez capaz de proteger a população, e não de espancá-la. Isso é pra ficar. Do resto, boas leis, um Estado de Direito e a livre concorrência dão conta.

não seja este cara!


Pra começar, é preciso querermos e exigirmos.



terça-feira, 5 de março de 2013

A Ladeira Escorregadia da Iniquidade


Por Pedro Lobo Martins
O senador Clésio Andrade (PMDB), notório representante mineiro do poderoso setor de transportes, está brincando com a nossa inteligência. Ou talvez não se importe com ela, mas apenas com o setor que financia suas campanhas milionárias. Campanhas que contaram com a mãozinha de Duda Mendonça, que afagou a cabeça de  galos antes das rinhas de que participava e que se sujou com o dinheiro asqueroso do mensalão. O caso que vou aqui contar, publicado no site do próprio senador, não poderia ser mais digno deste senhor.

Acontece que o setor de transportes está sofrendo com a falta de motoristas. Segundo  certas estimativas, faltariam entre 40 e 120 mil profissionais. A Associação Nacional de Transportes de Cargas estima que hoje, nas principais empresas, 1 em cada 10 caminhões esteja parado por falta de motoristas.

Estejam corretos ou não esses números, os principais analistas da área já propuseram medidas sensatas para sanar este descompasso entre o (pequeno) número de trabalhadores preparados e o (grande) movimento nas transportadoras.  É fato que não só o volume de carga transportada vem aumentando como cresce também a complexidade e o tamanho  dos caminhões e carretas, que agora têm computadores de bordo, sistemas de rastreamento e telemetria, entre outras parafernálias. Todas as medidas propostas passam pelo treinamento dos atuais condutores e pela formação de motoristas mais jovens, mais dispostos a absorver as novas tecnologias. Parcerias com escolas profissionalizantes seriam o caminho mais óbvio para esse fim.

Em uma economia de livre mercado, todo excesso de demanda é compensado por um aumento na oferta. Se faltam motoristas, cabe aos interessados – os empregadores – instituir os meios de atraí-los, seja pelo aumento de salários seja pela adoção de incentivos de outra natureza, como treinamento frequente, aumento de fretes para os motoristas autônomos e redução da jornada, entre outros.

Mas no Brasil as forças do mercado, infelizmente, não estão livres. E o senador Clésio Andrade, como legítimo representante do PMDB, e mais ainda da coligação de que seu partido faz parte em nível nacional,  não acredita nas forças do mercado e da livre iniciativa. Ou, se porventura acredita, prefere ignorá-la para favorecer seus aliados à revelia dessas forças. Mas certamente, como seus amigos do PT, Clésio não acredita nos princípios fundamentais estabelecidos pela constituição brasileira: os da igualdade de direitos entre os cidadãos brasileiros.
Não é por outro motivo que resolveu devolver favores aos financiadores de suas campanhas, que desde já agradecem: neste caso, apresentou um Projeto de Lei, aprovado no dia 21 de fevereiro último na Comissão de Desenvolvimento Regional e Turismo (CDR), que pretende garantir ao jovem que tenha renda familiar de até R$ 1.635,00 a obtenção gratuita da Carteira Nacional de Habilitação (CNH). A mesma CNH que nós outros, da classe média, temos que pagar do nosso próprio bolso. Segundo seu site, a proposta teria por objetivo “suprir a demanda do setor transportador por mão de obra qualificada”. Os recursos para financiar a habilitação virão da Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico (CIDE), cobrada na venda de combustíveis.

O senador não explica se esses jovens que receberão a CNH de graça terão que trabalhar obrigatoriamente para o setor de transportes. Depreende-se disso que os objetivos de seu Projeto de Lei são outros: por um lado, o lado populista, agradar a uma parcela expressiva da população, (quiçá seus futuros eleitores) que receberá um presente do senador, pago naturalmente pelo contribuinte. Por outro, agradar ao setor de  transportes, que passará a contar com um contingente maior de jovens habilitados não com dinheiro do setor mas – outra vez – de nós-outros contribuintes.

Por que, pergunto, não insiste ele que os senhores donos de transportadoras paguem eles mesmos pela formação de seus condutores, desde a primeira aula de auto escola, como aliás já fazem outros setores industriais?  Por que o senador não apresenta um Projeto de Lei que trate de um empréstimo aos jovens aspirantes a condutores, a ser pago em suaves prestações após seu primeiro emprego? Por que, pergunto, o senador, não começa a discussão para a regulamentação da profissão de motorista de caminhão? Por que, pergunto, o senador não institui na sua egrégia Casa a discussão sobre o aumento da participação do transporte ferroviário no transporte de cargas, atualmente em apenas 35%?

Clésio Andrade, que foi presidente da Confederação Nacional do Transporte (CNT) e vice-governador de Minas, não poderia agir de outra forma. Sabe como poucos participar do jogo  fisiológico em que não só ele mas quase todos de seu partido são tão bons, e que nós outros abominamos, que consiste em atender a interesses privados com dinheiro público; em dar o peixe ao invés de ensinar a pescar – e comprar, digo, cobrar votos dos injustamente favorecidos.  O contribuinte, mais uma vez, paga o pato, ou o voto.
  
Pode parecer uma crítica excessiva a um caso tão “inexpressivo”. Afinal, são apenas uns poucos milhares de jovens que vão ter a graça de ter sua carteira sem pagar um tostão por elas. Mas da ladeira escorregadia da iniquidade institucionalizada não se sai facilmente. Todos nós que acreditamos na democracia de facto tentaremos manter nosso equilíbrio. E, se nos recusarmos a apontar um dedo para os populistas fisiológicos, logo estes senhores farão com que percamos não só os demais dedos mas todos os nossos anéis.

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Resenha: privatize já













Por Pedro Lobo Martins

Quase nada é mais ineficiente e degradante quanto o estado quando se mete a querer gerir uma empresa: é o Estado-trembala, Estado-ferrovias, Estado-correios, Estado-eletricidade, Estado-banqueiro, Estado-Infraero, Estado-portos, Estado-paternalista, Estado-donodisso, Estado-donodaquilo.

Enquanto houver Estado-empresário vai haver moscas e parasitas ao seu redor, em busca de grandes nacos, de migalhas e de uma gota de sangue; vai haver corrupção, da esquerda e da direita; vai haver um capitalismo deturpado, em que só os amigos do rei e sua corte se dão bem, usando o público para benefício privado. Além disso, vamos ver o dinheiro de nossos impostos sendo jogado fora para financiar um corrupto e ineficiente “nacional-desenvolvimentismo” que seria melhor chamar de nacional-estatismo, ou talvez de estatismo socialista? Ou quem sabe ainda de nacional-socialismo?!

Fique o empreendedorismo por conta dos indivíduos, que devem arcar sozinhos com os riscos, amargando eventuais prejuízos e deliciando-se (por que não?) com os lucros. Fique o governo por conta de criar um ambiente propício ao empreendedorismo, um ambiente de respeito às leis e ao Estado de Direito; um ambiente que premie o mérito e não o coitadismo; que assegure os direitos individuais, incluindo o de livre-escolha, que garanta a liberdade, incluindo a de imprensa.

David Hume dizia que a liberdade não é perdida de uma só vez: seus inimigos procuram minar nossa integridade moral e nosso poder de escolha, tolhendo nossa liberdade pouco a pouco até que não sobre mais nada. Nossa essência e nosso caráter vão-se com ela. Friedrich Hayek acertou no alvo quando percebeu que, à medida que a liberdade econômica é tomada aos indivíduos, as liberdades pessoal e política também se perdem. Os romenos e albaneses sabem bem o que significou isso. Cubanos e Coreanos sabem ainda hoje. Venezuelanos, bolivianos e argentinos estão começando a saber. E o Brasil, sob a égide do PT?

Quando o Estado começa a ampliar seu raio de ação, aumentando ao mesmo tempo seu poder sobre as pessoas, é hora de dizer um não. Um não ao estado-corruptor e àqueles que, fugindo do corolário básico da liberdade querem negá-la aos outros: a responsabilidade individual, mesmo com todos os seus custos e incertezas.

Este livro, de Rodrigo Constantino, chegou em boa hora.
(Leya, 2012)


quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Joaquim e a Inquisição

Por Pedro Lobo Martins

Ligo meu computador hoje pela manhã e vejo no facebook uma postagem de uma professora de História da UFMG, falando de Joaquim Barbosa:

“Infelizmente, a fama subiu-lhe à cabeça e o ministro Joaquim Barbosa está jogando para a platéia. Intempestivo e rude, quer passar para a história como o magistrado que combateu a corrupção. Por vezes, perde a compostura e o senso de justiça...
Estranho um juiz desconhecer que o excesso de zelo e a vontade de punir podem redundar em injustiça.
E, como na Espanha de Torquemada, a massa delira...”


Torquemada? Excesso de zelo?

Infelizmente é comum a muitas pessoas, ao sentirem suas ideias de justiça (ou seu partido político) de alguma forma atacados, partirem para o denegrimento dos algozes  (ou bodes expiatórios) que eles mesmos instituem. Seria bom ter sempre o cuidado de não pretender desmerecer as ideias, ações e posicionamento atacando as pessoas por trás delas ou mesmo suas motivações pessoais. Chegou-se ao cúmulo de se levantar a suspeita de que Barbosa estaria se aproveitando da toga para vingar-se do cativeiro enfrentado por seus ancestrais. Se a maior parte das críticas não foi tão fundo, muitas cutucaram desrespeitosamente a pessoa do magistrado.

Se as ideias são sempre discutíveis e as pessoas são sempre imperfeitas, apenas as primeiras, e não as últimas, são capazes de sustentar a democracia.  E é só na democracia que as pessoas (ou, como prefere pejorativamente a professora, a ”massa” delirante, a “platéia”) podem avaliar as ideias e gostar, ou não, de quem as defende.

Invertendo a questão: não é meu gosto pela extensa obra da professora no campo da história colonial mineira (sobretudo por seus estudos sobre a "Guerra" dos Emboabas) que me tornará um incondicional admirador de sua pessoa, que alias nunca conheci.

Comparações com a inquisição parecem-me fora de propósito e anacrônicas. Torquemada e seus pares defendiam interesses da Igreja Católica no contexto de uma Reconquista ainda incompleta e dos primeiros laivos da Reforma. As decisões do STF  (Barbosa, a propósito, não é o único a votar) são apenas um tiro contra uma instituição secular (em ambos os sentidos) e arraigada, que é a corrupção. E quem melhor do que os ministros do STF para julgar a corrupção, num país em que a justiça (sobretudo nas instâncias inferiores) não é exatamente cega e onde milhares de telhados são de vidro?

É estranho a professora notar a “descompostura” do ministro Joaquim Barbosa e não criticar a frieza e inconsistência demonstradas por Lewandowski no decorrer do julgamento. Se a polidez é desejável, nem sempre acolhe a razão. Como retorquiu o próprio Joaquim Barbosa ao revisor, após este fazer notar a “rudeza" do relator:



“Em qualquer atividade humana, urbanidade e responsabilidade são qualidades que não se excluem. Mas, às vezes, a urbanidade presta-se a ocultar a falta de responsabilidade. A propósito, é com extrema urbanidade que muitas vezes se praticam as mais sórdidas ações contra o interesse público.”

É sempre bom lembrar: muitos nazistas cometeram as maiores atrocidades sem se desviarem de sua frieza, de uma "urbanidade" e até mesmo da polidez.

Nuremberg e a história, felizmente, não os julgaram por sua compostura.



domingo, 11 de março de 2012

A Princesa escreve ao Conselheiro


























Um menino lê uma carta

Dentre as lembranças mais vivas da minha infância está a "carta do Conde D´Eu ". 
 
Ficava em um quadro emoldurado na parede dos fundos do escritório do meu avô Mauro, entre duas folhas de vidro, não sei se a cópia ou a original, o que, afinal de contas, não importa. Lá estavam, bem à mostra, aquelas letras cheias de floreios em um papel já amarelado, no fim do qual nós, que já conhecíamos da escola os nomes longos e leopoldinos dos tempos misteriosos do Império, distinguíamos um nome inusitadamente curto: Gastão de Orleans. E a data: 17 de novembro de 1889. 

Mas quem era o Joaquim Delfino, a quem era endereçada a carta? Minha avó Luiza explicava que era seu avô, pai de seu pai, amigo do Conde D´Eu e do próprio imperador, de quem era Conselheiro e a quem servira como ministro da Justiça, da Marinha, da Guerra e outros cargos pomposos. No dia seguinte estava com uma cópia, tirada de em uma gaveta, e menino orgulhoso, mostrava a todos os colegas da escola pública que frequentava. Mais que atiçar a vaidade infantil, a carta me mostrou que a história não estava apenas nos livros escolares. Correndo no nosso sangue, tornava-nos parte dela. E 1889, de uma data distante, passou a ser ainda ontem. 



                                                                O Conselheiro Joaquim Delfino Ribeiro da Luz  (1824 -1903)


Meus avós se foram e a carta foi parar na gaveta profunda - e cheia de coisas estranhas - da mesa do meu pai, em seu escritório. Lá ficou junto a rolos velhos de negativos, fotos desgarradas de meninos tristes com erupções de pele, vidrinhos com dentes de leite dentro e uma papelada danada. E a carta passou a ter todo o tempo do mundo para contar àqueles objetos “modernos” aquele e outros causos que se ouviam nos derradeiros momentos do Império, e, quem sabe, desde os tempos de D. João VI.

Certamente a velha carta, que o tempo tratou de dar vida, não a ela, mas às mãos que a escreveram e aos tantos dedos que a tocaram, hoje quietos, contou suas histórias em muitas outras gavetas. Ninguém sabe por onde andou: da gaveta de Joaquim Delfino à de seu filho Joaquim Bento? Da escrivaninha deste à de seu filho Joaquinzinho? Da mesa de cabeceira do tio Joaquinzinho à gaveta de sua irmã, minha avó? 

O fato é que, de esconderijo em esconderijo, foi parar na gaveta em que repousará para sempre, depois de 122 anos, no Museu Imperial de Petrópolis. Lá, entre tantas outras, poderá contar sua história, não a objetos de ouvidos moucos, mas aos olhos sempre vivos dos que se interessarem por sua pequena história.
 
Os documentos históricos e os objetos de família são como os livros: nunca serão nossos, mas apenas passam por nós. Sobreviverão a nós se formos seus bons e fiéis guardiães. 

A carta conta suas histórias

No início da década de 1860 Joaquim Delfino Ribeiro da Luz foi nomeado conselheiro do Império. Em homenagem à imperatriz Teresa Cristina, mãe da princesa Isabel e esposa de D. Pedro II, propõe então à câmara municipal da velha Espírito Santo do Cunquibus, da qual era presidente, uma nova denominação para o lugar: Vila Cristina.

Em 1868 a jovem Princesa Isabel, de 22 anos, e Dom Luís Filipe Maria Fernando Gastão de Orléans, o Conde D´Eu, seu esposo francês, fizeram uma viagem pelo sul de Minas. Os objetivos, aparentemente, não eram só amarrar laços políticos e retribuir favores: após quatro anos de casamento, a Princesa Isabel queria engravidar.

                                                                                        A jovem Princesa Isabel


É que ouvira falar das “águas virtuosas” de Caxambu. Conhecidas desde há muito pelos índios Cataguases que habitavam a região, a existência das fontes hidrominerais foi tornada pública apenas no início do século XIX, quando sua fama se alastrou. O interesse do casal imperial estava voltado mais especificamente para as fontes de águas ferruginosas. É que a Princesa sofria de anemia crônica e esta, segundo os médicos, era a principal razão desua infertilidade. Passou pouco mais de um mês em Caxambu, restabelecendo-se de sua anemia. 

Era hora de pagar promessas. Após orações públicas dirigiu-se ao alto de um morro e, em cerimônia ali realizada, lançou a pedra fundamental da Igreja de Santa Isabel de Hungria. Foi lavrada ata oficial e formada uma Comissão Construtora, subscrevendo-se para isso uma quantia razoável. Joaquim Delfino muito provavelmente estava presente.

                                                                                    As fontes ferruginosas D. Isabel/Conde D´Eu


Enquanto isso, uma grande movimentação quebra a calmaria da nova vila de Cristina: naquele primeiro dia de dezembro de 1868 as sinhás usam seus vestidos e joias mandados vir da Corte. Os coronéis penduram no peito suas condecorações, suas veneras. Chega então a importante comitiva imperial, vinda de Caxambu, a fim de agradecer a homenagem prestada pela Vila Cristina à mãe da princesa. Às onze horas da manhã o cortejo entra pela rua direita. Das janelas e sacadas descem colchas rendadas. A banda toca empolgada. A multidão de todas as cores grita vivas das ruas e do alto dos sobrados. Em seguida as pessoas importantes do lugar vão até a casa de Joaquim Delfino, anfitrião do casal real, para o beija-mão protocolar. Após o banquete, todos seguem para a Matriz para ouvir o Te Deum mandado celebrar pela câmara em ação de graças “pela feliz viagem de S.S.A.A e pela distincta honra que fizerão a esta Villa com sua vizita”. Às seis horas da manhã do dia seguinte a comitiva deixa Cristina.


                                                                                      A visita do casal imperial a Cristina foi motivo de grande festa


Algum tempo se passou e a Princesa finalmente engravidou. Entretanto, as primeiras gestações não tiveram sucesso, advindo vários abortos. A primeira gravidez que levou a termo resultou em uma menina que nasceu morta, após um trabalho de parto difícil, que durou mais de 50 horas, em que os quatro obstetras que a assistiam tiveram que abrir o crânio da criança para tentar fazê-la passar pelo canal. Foi só em 1875, onze anos depois de casada, que veio à luz D. Pedro de Alcântara. Mas o menino nasceu asfixiado em conseqüência de um fórcipe e sofreu lesões no braço esquerdo, que ficou paralisado. Isso lhe valeu o apelido de Mão Seca. Nos anos seguintes a realeza brasileira ganhou outros dois herdeiros, Dom Luiz Maria e Dom Antonio.


                                                                                                   O casal imperial e seus três filhos


A construção da Igreja de Santa Isabel da Hungria seguiu aos trancos e barrancos, mesmo após o nascimento dos três filhos desejados, embora outras promessas tenham sido cumpridas de forma mais imediata. Em 6 de novembro de 1884, por exemplo, ofereceu a Nossa Senhora uma coroa de ouro cravejada de brilhantes, que mais tarde, em 1904, coroou a Imagem de Aparecida como Rainha do Brasil, e em cuja cabeça repousa ainda hoje.


                                                                                              A coroa de Nossa Senhora de Aparecida


Dois dias após a proclamação da república, Isabel e esposo estavam a caminho da Europa a bordo da canhoneira Parnayba, que os levaria ao paquete Alagoas para uma viagem sem retorno. Pode-se apenas imaginar os pensamentos que inundavam os sentidos de Isabel, que vivera seus 42 anos em terras brasileiras; um nada, se comparado a toda uma longa vida aqui vivida por seu pai, o já idoso D. Pedro II.



                                                                                                       O paquete Alagoas


Entretanto, entre tantas aflições e pensamentos desencontrados, lembrou-se daquela promessa, feita anos antes, e, fazendo da pena de seu marido certamente eco de suas palavras, escreveu àquele com quem compartilhara a mesa 20 anos antes, em Cristina, e que, desde 1885, ocupara os cargos de Ministro da Justiça e Ministro da Guerra do Brasil. Joaquim Delfino, embora agora afastado do círculo de poder no novo regime republicano, lhe parecia o único capaz de lhe acalmar esta aflição, a aflição do exílio.


Exmo. Sr. Cons.ro Joaquim Delfino,
Tendo de retirar-me, bem com pesar meu, d´este paiz não quero deixar de mais uma vez recommendar à tua protecção, em nome da Princeza e no meu, a conclusão das obras da Capella de Santa Isabel de Hungria, no arraial de Cachambú, município de Baependy. Estas obras pias, projectadas desde seu começo pela Princeza, teve (sic) certo impulso principalmente devido aos esforços de V.Exa. e de seu illustre filho o distincto engenheiro Dr.Christiano Ribeiro da Luz.
Será para nós grande satisfacção saber que não fica ella abandonada, mas que marcha para sua conclusão. Confiando pois no espírito religioso de V.Exa. e de seu digno filho, e nos sentimentos de amizade que nos tens mostrado, ouso esperar que mais uma vez tomarás em mão este piedoso emprehendimento.
Aproveito com prazer esta opportunidade para reiterar-lhe a expressão dos meus sentimentos de particular consideração e estima.
Gastão de Orleans
Bordo da Canhoneira Parnahyba,
Rio de Janeiro, 17 de novembro de 1889”

Não se sabe exatamente como Joaquim Delfino intercedeu a favor da continuação das obras, mas elas prosseguiram, ainda que lentamente, tomando as feições do estilo neogótico tão característico das construções religiosas de fins do século XIX e primeira metade do século XX. A partir da década de 1890 as obras foram tomadas pelo engenheiro Honorato Pereira de Carvalho, sob os auspícios do Conselheiro Francisco de Paula Mayrink, 15 anos mais jovem que Joaquim Delfino. 

Mayrink era detentor da maior fortuna pessoal do Brasil na época, e seus interesses abrangiam todo tipo de negócio: bancos, companhias de estradas de ferro, iluminação a gás,  imprensa, teatros e diversos empreendimentos industriais. Em Caxambu deu início à exploração comercial das águas minerais, e hoje uma das fontes do Parque das Águas leva seu nome. Graças a ele a Igreja de Santa Isabel de Hungria foi finalmente consagrada, em 1897. Na França, onde cumpria exílio e onde veio a falecer em 1921, Isabel deve ter sorrido. O velho Joaquim Delfino, no Rio de Janeiro, também sorriu. Promessa cumprida.



                                                                                                                      A Igreja de Santa Isabel de Hungria


A carta vira notícia

 Em 13 de agosto de 2011 uma pequena comitiva formada por pelos bisnetos de Joaquim Delfino: Nelson Ribeiro da Luz Lobo Martins e seu irmão Mauro Lobo Martins Jr.,acompanhados das respectivas esposas Maria Josephina e Maria do Rosário, passou por Petrópolis. No Museu Imperial esperava por eles seu diretor, Maurício Vicente Ferreira Jr. Em uma cerimônia simples Nelson, seu penúltimo guardião, assinou o termo de doação da carta, que passou a uma gaveta daquela instituição, onde estará à disposição dos pesquisadores.




                                                  Nelson assina o termo de doação da carta ao Museu Imperial,
                                                  representado por seu diretor, Maurício Vicente Ferreira Jr.   


Assim noticiou o evento o site do Museu Imperial de Petrópolis:

 http://www.museuimperial.gov.br/portal/index.php?option=com_content&view=article&id=2070:museu-imperial-recebe-doacao-de-carta-escrita-pelo-conde&catid=14:news-releases&Itemid=107

Museu Imperial recebe doação de carta escrita pelo conde d'Eu em 1889

Recentemente, o Museu Imperial recebeu uma importante doação para seu Arquivo Histórico. O médico Nelson Ribeiro da Luz Lobo Martins doou uma carta escrita em 17 de novembro de 1889 pelo conde d'Eu para Joaquim Delfino Ribeiro da Luz, que foi magistrado, político e proprietário rural brasileiro. O Dr. Nelson é bisneto de Joaquim Delfino e recebeu a carta de seu pai, após o documento ter sido passado de geração em geração.

 Como a data aponta, a carta foi escrita dois dias após a Proclamação da República. O marido da princesa Isabel estava a bordo do navio Parnaíba, que levou a família imperial até o navio Alagoas para partir para a Europa rumo ao exílio.

 Na carta, o conde d'Eu solicita que Joaquim Delfino dê procedimento às obras de construção da Igreja de Nossa Senhora da Hungria, em Caxambu (MG). A igreja havia começado a ser construída em 1868, em cumprimento a uma promessa feita pela princesa Isabel.

 A correspondência passará a integrar o acervo do Arquivo Histórico, que conta com mais de 200 mil documentos, incluindo cartas, fotografias, ilustrações e outros.

Esta informação foi replicada por pelo menos vinte e sete outros sites de notícia, entre eles: Folha on-line, O Globo, Jornal Floripa e Tribuna de Petrópolis, além de sites de diversas instituições museológicas.

  
A beleza de uma carta

 
Apenas uma carta amarelada pelo tempo, escrita a caminho do exílio. Mas onde podemos encontrar a beleza, fora da perfeição da natureza, senão nos nossos pequenos gestos de desprendimento, em meio à dor, humanos e falíveis que somos?






...

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Sweet Dreams















Começava uma linda manhã. O sol fresco da Chapada Diamantina irrompeu através da corrubiana, no alto da serrania, para aquecer de leve o meu rosto, enquanto abria a janela do quarto da pousada, em Lençóis.

E então, inspirado, criei esta música. Uma música solene, como aquelas montanhas. Um pouco triste, talvez, como a solidão. Mas tem um pouco da alegria esperada do porvir. Por isso é uma música de amor. Amor pela minha noiva, hoje minha esposa. Enquanto doces pensamentos me embalavam a alma, já cantarolava: "sweet, sweet dreams that play with the morning..."

E em seis de outubro de 2000 aquela música foi tocada à minha entrada na Basílica. Naquele momento, ao fitar aquela grande porta de madeira, escutei o coro cantar: bring her fast, fast, fast to me!.

And beautiful she came!
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Nas imagens, uma outra paixão: as grutas. Sua imensidão silenciosa torna-nos subitamente conscientes de nossa própria dimensão.

Mas se a nossa matéria é pequena, insignificante, nem mesmo os mais amplos salões do mundo, os mais vastos oceanos ou as mais altas montanhas são capazes de impedir nossos sonhos de alçar seus mais ousados voos. E transcender todos os cumes.

Die Gedanken sind frei, wer kann sie erraten?
sie fliegen vorbei wie nächtliche Schatten.

Os ruidos de fundo, estes são inevitáveis...

 


It was a lovely morning. The cool sun at Chapada Diamantina broke out through the mountain fog, high above, and gently warmed my face as I opened the window of my hotel room, in Lençóis.

An then, inspired, I made this song up. A solemn song, like those mountains. A little sad, perhaps, like solitude. But it transpires some of the joy yet to come. It is thus a love song. Love for my fiancée, now my wife. As sweet dreams rocked my soul, I saw myself singing: "sweet,sweet dreams that play with the morning..."

On October 6th 2000 that very song was performed as I walked along the Basilica's alley. And then, as I stared the great wooden door, I heard the choir sing: bring her fast, fast, fast to me!

And beautiful she came!
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The images are of another passion: caves. Their silent, sheer magnitude suddenly makes us aware of our own dimension.

But if our bodies are small, insignificant, not even the greatest among all cave chambers, the widest oceans or the highest mountains are capable of keeping our dreams from undertaking the most daring flights. And transcend all summits.

Thoughts are free, who can guess them?
They flee by like nocturnal shadows.

As for background noise, it is unavoidable...





terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Sobre lobos, ovelhas e maus pastores













Por Pedro Lobo Martins

Uma das principais preocupações dos europeus é continuar sendo o centro do mundo. No afã de manter sua auto-estima, são continuamente estimulados por uma história riquíssima e uma cultura madura, em que, infelizmente, se combinam elementos profundamente democráticos com uma tendência avassaladora à centralização política, que tantas vezes desembocou no fascismo.

Sofrendo de distúrbio bipolar crônico, a Europa alterna fases de euforia econômica, em que sua raiz democrática aflora, com momentos em que afunda no abismo das incertezas, porta para o inferno do totalitarismo.

A raiz dos males na Europa é a mesma de tantas economias do mundo atual e de tantas famílias, que repetem o mesmo erro de sempre: um desequilíbrio, no longo prazo, entre receitas e despesas. Tão simples assim.

O problema não está no capitalismo, mas na natureza humana. Nenhum sistema dá conta por inteiro da nossa mania de querermos sempre mais e de sermos melhores que os nossos vizinhos. As utopias socialistas, como pretendem ignorar os manifestantes da foto acima e como já provou a história, são as que mais se distanciam da nossa essência.

O problema está na mania neo-keynesiana dos governos e das mentalidades que os sancionam, em todo o mundo, e que, cada vez mais absortos na ciranda do populismo e do politicamente correto, aviam receitas que incluem, entre seus ingredientes, o comprometimento de recursos do contribuinte para financiar uma máquina estatal agigantada da qual o sistema bancário, confundindo sua razão precípua, se tornou seu maior sócio.

As pessoas têm razão em demonstrar contra os governos, mas pelos motivos errados. Muitos de seus empregos foram criados e mantidos por dinheiro de mentira, sem lastro, criado por governos neo-keynesianos perdulários, ainda que democraticamente eleitos, e seus bancos associados, que ninguém deixa quebrar. A bolha que agora estoura não é a do capitalismo, mas a do pseudocapitalismo de Estado que o distorceu e em que todos, inocentemente, continuam acreditando.

A armadilha está montada na Europa e, por extensão, para todo o mundo, e os buracos são dois: os totalitarismos de direita e de esquerda. Entre as alternativas, a que permanece em segundo plano, atrás dos prados verdejantes do populismo travestido de politicamente-corretismo, é a do realismo: colocar as instituições para fazer aquilo para que foram feitas, desde séculos atrás, sem distorções. Bancos emprestam para quem pode pagar. Governos não gastam o que não podem e não devem. As pessoas cuidam de suas vidas. A justiça funciona.

Só assim se poderá domar o lobo insaciável que há em todos nós, garantindo, ao mesmo tempo, sua liberdade.

sábado, 10 de dezembro de 2011

Why Architecture Matters, por Paul Goldberger


 









Por Pedro Lobo Martins

Vitruvius, escrevendo no primeiro século AD, definiu os três elementos primordiais da arquitetura como comodidade, solidez e prazer. Paul Goldberger foi mais além: um edifício deve ser útil, bem construído e visualmente agradável, é certo, mas a arquitetura começa realmente a importar na medida em que, não obstante essas três facetas fundamentais, mais ligadas à funcionalidade e à praticidade, adquire qualidades de Arte. A arquitetura importa quando, podendo gerar prazer, pode também nos tornar infelizes; quando, podendo nos trazer o conforto do íntimo e do familiar, tem o potencial de nos deixar perplexos em meio à grandeza dos grandes espaços; quando, aliviando as nossas necessidades, pode satisfazer também os nossos desejos.

A arte pode ser definida principalmente pela intenção. Também a arquitetura possui essa qualidade, mas nela a intenção traduz-se pelo seu caráter civilizatório. Goldberger entende que a arquitetura importa quando, mais do que edifícios individuais, pode criar uma fábrica urbana que acaba por se tornar o substrato da civilidade e da civilização. Valoriza, assim, a ligação estética entre edifícios vizinhos como elemento desejável na composição urbana (isso nos faz comparar a cacofonia visual de uma cidade como Belo Horizonte com a harmonia urbana de uma Paris).

Com a invenção da prensa, no século XV, a arquitetura deixou de ser o principal veículo de propagação de ideias, como observou Frank Lloyd Wright, e o seu propósito teve que ser rediscutido. A leitura que Wright e outros modernistas fizeram da situação é a de que as ideias do passado deveriam permanecer no passado, tornando-se inútil – para não dizer imoral – procurar reinventá-las. Os modernistas inauguraram a noção do “estilo de época”, desconhecido até o século XX. Para Goldberger, talvez tenha sido excesso de pretensão.

Isso porque, para ele, a arquitetura importa quando logra comunicar sua mensagem, que transcende o puramente funcional, e foca-se no belo. Afinal a forma, a escala, a proporção, a textura e a relação com o contexto do entorno dizem muito mais sobre o sucesso de um edifício do que as associações estilísticas que aplicamos a ele, ainda que estas se curvem às vicissitudes dos tempos. E que tempos estes, pós-modernos, em que "o gosto é a única moralidade". E Ruskin ainda diz: “Dize-me de que gostas e eu te direi quem és”. De qualquer modo, sobre a labilidade das preferências, individuais ou sociais, Goldberger pretende que deva prevalecer a estética do espírito.

A alienação espiritual que se observa nos grandes centros poderia estar ligada à perda da sensibilidade estética pela maior parte das pessoas. Goldberger cita Christian Norberg-Schulz, para quem está em curso a perda de senso de lugar na sociedade contemporânea, que se reflete na perda de um entendimento poético do mundo: “a vida, de fato, não consiste de quantidades e números, mas de coisas concretas como pessoas, animais, flores e árvores; de pedras, terra, madeira e água; de cidades, ruas e casas; do sol, da lua e das estrelas; das nuvens, da noite, do dia e da mudança das estações. E nós estamos aqui para nos importar com essas coisas.”. A arquitetura importa porque pode trazer o belo para mais perto das pessoas; porque pode tornar as pessoas mais sensíveis ao belo e, assim, mais felizes.

Goldberger considera as possibilidades de criação e desafio estético inesgotáveis. Mas se as possibilidades da ciência e da tecnologia, por mais que se pretenda o contrário, são limitadas, as do espírito sensível ao belo nunca serão.



sábado, 29 de outubro de 2011

A Exploração


Por Pedro Lobo Martins

Adaptação do bonito poema de Raimundo Correia: A Cavalgada

Este soneto é uma homenagem àqueles que, mais do que exploradores dos mundos subterrâneos, são grandes amigos das grutas. A ponto de estarem dispostos a deixar partes de suas almas nos labirintos onde, quem sabe um dia, serão capazes de reencontrá-las - apenas para mais uma vez as  deixarem por lá...
As grutas são uma metáfora da vida: apenas passamos por elas; e, embora não sejam infinitas, como talvez desejássemos, nos mostrarão seus infinitos mistérios, se bem procurarmos.
 

                                                                                                        Foto: Pedro Lobo Martins

A Exploração

A noite banha a solitária dama...
Silêncio!... mas além, confuso e brando,
O som longínquo vem se aproximando
Das vozes que dão alma à crua chama.

São pessoas que vão rumo ao incerto;
Vêm alegres, vêm rindo, vêm cantando,
C'os olhos a brilhar vão perscrutando
As sombras mudas do gentil deserto...

E a gruta ecoa, move-se, estremece...
Dos exploradores a visão fluente
Perde-se então no fundo da montanha...

E o silêncio outra vez soturno desce,
E límpida, sem mácula, premente,
A noite a solitária dama banha...